Bia Araujo atravessou o Atlântico para estudar artes em Lisboa. Trabalha durante o dia para comprar as suas telas e tintas. Num atelier na Rua da Glória, durante a noite, invade e molda suas telas. Na concepção estão às cores primárias com suas complementares e formas geométricas, nas referências Vasarely e Tarsila do Amaral. A artista deseja mostrar oposição e completude, a necessidade dos opostos.
1) Qual a técnica nos teus quadros?
O material é a tinta acrílica sobre tela. Uso principalmente as cores primárias, de uma forma lisa, chapada, com pouca transparência, quero enfatizar a cor. As formas geométricas buscam simplificar o que mostro, são simples para quem olha.
2) O que queres mostrar?
Trabalho em cima da oposição, uso as cores primárias e suas opostas, que as complementam. A temática do projeto é justamente isso, o que é oposto se completa, as cores dos quadros se completam. Faço uma forma com uma cor e a repito com sua complementar.
3) O que esperas transmitir a público?
Cada espectador tem uma visão diferente; o que quero mostrar é a oposição, equilíbrio. Os opostos que se neutralizam se completam de uma forma equilibrada. Durante o projeto também li Yves Klein, ele ajudou-me muito. Quero mostrar tudo, é como se tudo fizesse referência aos opostos. Isso serve para relações, pessoas, de fato, onde os opostos são necessários, quando eles juntos se necessitam.
4) O que te mobiliza no campo pessoal para produzir atualmente?
As contradições do mundo me mobilizam, até a relação homem e mulher. Vejo isso nas pessoas também, é geral. Quando falta o companheiro, o parceiro, falta alguma coisa para sentirmos completos.
5) Quais as influências na tua pintura?
As minhas referências são mais históricas. Busco os artistas que me fazem referências, como Andy Warhol, Tarsila do Amaral, Yves Klein, Vasarely, porque leio a história deles, o percurso, as experiências artísticas que deram certo ou não. Já não são aventureiros como nós que ainda estamos a experimentar. Identifico-me, por exemplo, a Vasarely, que tem pintura óptica, onde o espectador se depara com uma obra absolutamente visual, o meu trabalho também tem muito dessa idéia. Não tenho que conceituar é só olhar e já pronto. Uma das coisas que aprendi com Tarsila é a ousadia de não ter medo ao usar cor, ela me encorajou. As pessoas comentam que minhas telas são muito fortes porque têm muita cor, mas é meu trabalho, tenho que fazer o que percebo.
6) A cor é metáfora do quê no teu trabalho?
Quando se pinta é preciso cor. Durante a faculdade apeguei-me às cores primárias, porque delas surge tudo, todas as outras coisas. É como se fosse o início do mundo, tudo o que penso para as minhas telas tem início numa cor primária. Penso na minha criação, olho para a tela e a imagino pronta. Não faço croquis, não faço estudos para os meus trabalhos. Porque eles são muito objetivos, por vezes no processo mudo um tom, uma forma. A minha tela está sempre em transformação, que a linha que deveria ir para um lado acaba se direcionando para o outro. É-me difícil falar que acabou que finalizou, até por não ter esse rascunho, esse objetivo final.
7) Como se dá teu processo criativo?
Ultimamente tem sido na geometria, não penso em figuras realistas no meu trabalho. Penso em formas curvas e retas, nesse projeto baseei-me no círculo, no quadrado e no triângulo. Trabalho tudo em triplo, três cores primárias, três formas geométricas e três telas. É um processo de conceber formas, com meu compasso e régua, materiais básicos.
Essa exposição foi realizada na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa em setembro de 2008.